*Este é mais um post extra, dessa
vez em homenagem a um dos maiores bateristas e letristas de todos os tempos: Neil Peart, da banda canadense de rock
progressivo Rush. Neil faleceu em 7
de janeiro de 2020, aos 67 anos.
A
MÚSICA
TOM SAWYER
Moving Pictures
1981
Letra de Neil Peart
Um guerreiro dos dias modernos.
Maldoso, andar maldoso.
O Tom Sawyer de hoje.
Maldoso, orgulho maldoso.
Embora sua mente não esteja para alugar,
Não o rebaixe como arrogante.
Sua reserva, uma defesa quieta,
Contornando os eventos diários.
O rio!
O que você diz sobre sua companhia
É o que você diz sobre a sociedade.
Perceba a névoa, perceba o mito,
Perceba o mistério, perceba a deriva.
O mundo é, o mundo é...
O amor e a vida são profundos.
Talvez tanto quanto os céus sejam vastos.
O Tom Sawyer de hoje,
Ele passa por cima de você.
E o espaço que ele invade,
Ele consegue através de você.
Não, sua mente não está para alugar
Para nenhum deus ou governo.
Sempre esperançoso, embora descontente,
Ele sabe que as mudanças não são permanentes.
Mas a mudança é!
O que você diz sobre sua companhia
É o que você diz sobre a sociedade.
Perceba a testemunha, perceba a sabedoria,
Perceba o espírito, perceba o cuspe.
O mundo é, o mundo é...
O amor e a vida são profundos.
Talvez tanto quanto os seus olhos estejam abertos.
Sai de cena o guerreiro,
O Tom Sawyer de hoje.
Ele passa por cima de você
E da energia que você troca.
Ele prossegue no atrito do dia.
O
FILME
THE ADVENTURES OF TOM SAWYER (AS AVENTURAS DE TOM SAWYER)
1938
Dirigido por Norman Taurog
Escrito por John Weaver
“Ele sabe que as mudanças não são permanentes, mas a mudança é”. Frases como essa e uma habilidade descomunal com os instrumentos fizeram de mim um grande apreciador de Rush, a despeito da voz anasalada de Geddy Lee. É fato que os três (Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart) estão entre os melhores músicos de todos os tempos em seus respectivos instrumentos, mas pouca gente toma tempo para apreciar as habilidades como letrista de Neil Peart. O baterista, que nos deixou recentemente, era um ávido leitor e um grande apreciador de filosofia, arcabouço que é evidente em seu trabalho. Tom Sawyer, o maior sucesso do trio, é exemplo disto.
As Aventuras de Tom Sawyer e, posteriormente, As Aventuras de Huckleberry Finn são dois clássicos de um dos maiores escritores americanos, Mark Twain. Embora tenha uma bibliografia vasta, esses dois livros são os mais populares de Twain e refletem muito bem a época da infância do autor. Para mim, Twain é o Monteiro Lobato dos Estados Unidos, embora sua obra seja mais crítica. A leitura me transporta para a simplicidade da vida de menino do ambiente rural sulista no século XIX, com todas as traquinagens e aventuras que se podia ter. Tom e Huck são como Pedrinho e Narizinho, porém com menos imaginação e mais realismo. É nesse ponto que o autor se destaca e é hoje leitura obrigatória nas escolas americanas, sua reflexão da sociedade à época.
Tom Sawyer é um órfão que vive com sua tia Polly e seu meio-irmão Sid na cidade fictícia de St. Petersburg, Missouri, na primeira metade do século XIX. Já de início, em uma das cenas mais famosas da literatura americana, Tom convence as crianças da rua a pagá-lo para pintar a cerca de tia Polly, algo que ele fora obrigado a fazer. Esse primeiro uso da psicologia reversa a seu favor já mostra a astúcia do garoto, que ao mesmo tempo revela inocência em seu namorico com Becky Thatcher, a novata de sua turma. A outra personagem importante da trama é Huck Finn, um garoto de rua que ao mesmo tempo é símbolo do abandono e da liberdade. Juntos, eles acabam testemunhando um assassinato, resolvendo crimes, pregando peças nos adultos, vivendo aventuras como piratas em uma ilha próxima e tudo mais que se possa ter feito naquela época.
O livro foi adaptado diversas vezes para o cinema, inclusive na União Soviética (pasmem!), mas escolhi a versão de 1938 por ser Technicolor, minha paixão, e ser uma das mais fiéis ao livro. As sequências da pintura da cerca e do desgarramento na caverna são exatamente como descritas no livro. Além disso, a própria atmosfera de 38 ajuda a aproximar o espírito de época do livro. Contudo, para os que torcem o nariz com filmes antigos, há versões mais novas, animações, séries e até mesmo animes e videogames.
O
TEMA
Neil Peart (1952-2020)
Neil
Ellwood Peart nasceu em 12 de setembro de 1952 em Hamilton (ON), Canadá. Ao
lado de Keith Moon (The Who) e John Bonham (Led Zeppelin), ele foi um dos
maiores bateristas de todos os tempos. Mas também foi o principal letrista de
uma das mais icônicas bandas nerds e esquisitas, embora mainstream, de todos os tempos. E Neil Peart era exatamente isso:
um nerd esquisito com particularidades mainstream.
De caráter extremamente reservado, leitura ávida, paixão por viagens e motocicletas
e dedicação científica ao instrumento, ele escreveu seu nome no Rock and Roll Hall of Fame e na eternidade,
mesmo tendo deixado de existir fisicamente em 7 de janeiro de 2020.
Desde sua entrada na banda, no segundo álbum Fly by Night (1975), Peart foi designado a escrever as letras enquanto Lee e Lifeson compunham as músicas. Na sua estreia, ele já escreveu Anthem, baseada no romance de mesmo nome da filosofa Ayn Rand e Rivendell, nome da cidade élfica da obra de J. R. R. Tolkien, traduzida como “Valfenda” em português. Tolkien voltou a servir de inspiração para The Necromancer no álbum seguinte, Caress of Steel (1975), e o romance Anthem de Rand é a inspiração do lado A de 2112 (1976), uma faixa de mesmo nome com várias partes.
Ayn Rand foi uma romancista judia-americana nascida na Rússia e precursora de um sistema filosófico chamado Objetivismo que essencialmente se opunha ao Coletivismo. Por suas posições contra sistemas socialistas e comunistas em voga na metade do século XX e sua defesa do que hoje seria o libertarianismo ou anarco-capitalismo, Rand é erroneamente vista como extrema-direita, o que é uma grande bobagem. Embora sua obra contenha vários furos estruturais e suas ideias tenham sido distorcidas em prol de movimentos conservadores autoritários, basta observar suas posições em relação ao nacionalismo e à religião para identifica-la como uma oposição alternativa, talvez na direita no espectro ideológico, ao Fascismo e ao Nazismo. Mas claro que isso não impediu que Neil Peart e o Rush fossem atacados por 2112, chegando ao ponto de serem chamados de “fascistas juniores” e “amantes de Hitler”, o que particularmente ofendeu o filho de sobreviventes do Holocausto, Geddy Lee. Décadas depois, o baterista se declarou como “libertário de tendência à esquerda”, “libertário de coração mole” e também um possivelmente um agnóstico teísta.
A partir de Permanent Waves (1980), Peart gradativamente abandona as letras puramente mitológicas e passa a usar metáforas ou refletir diretamente sobre temas sociais, emocionais e humanitários. O pensamento de Rand ainda tem forte influência em músicas como Free Will, Red Alert, The Big Money, The Weapon, Red Barchetta, etc., repudiando a mentalidade de rebanho e a conformidade social, em exaltação ao poder do indivíduo. Tom Sawyer, do álbum Moving Pictures (1981), é também um exemplo dessa influência. Peart usa a personagem de Mark Twain para representar um rebelde moderno, de espírito livre que é por vezes erroneamente tomado como arrogante, porém apenas expressa sua introversão e filosofia individualista, o que não necessariamente significa ser egoísta no sentido estrito de descaso com os demais. A música acabou virando um hino da banda, o que é bem apropriado dado que junta a genialidade musical de Lee e Lifeson e o espírito lítico de Peart em uma faixa com apelo comercial e ainda homenageia um dos romances mais importantes da literatura americana.
Além do Objetivismo e da mitologia, Peart ainda escreveria sobre astronomia (Cygnus X-1 Book I: The Voyage, Cygnus X-1 Book II: Hemispheres, Dreamline), História (Bastille Day, The Trees, Manhattan Project), aquecimento global (Red Tide), autobiografia (Fly by Night, Limelight, The Camera Eye), medo (Witch Hunt, The Weapon, e The Enemy Within), homossexualidade (Nobody’s Hero) e, finalmente, um álbum conceitual, o último da banda, chamado Clockwork Angels (2012), que gira entorno de uma distopia steampunk que dessa vez fez o caminho contrário: serviu de inspiração para os livros de ficção-científica Clockwork Angels e Clockwork Lives, de Kevin J. Anderson.
Em
44 anos de Rush, há uma passagem de Neil, registrada no documentário Beyond the
Lighted Stage (2010), que eu considero dizer muito sobre o artista que ele era.
Já em 1994, com 14 álbum de estúdio gravados, milhares de shows e dezenas de
reconhecimentos como melhor baterista, ele começou a ter aulas de bateria com um
professor de jazz chamado Freddie Gruber. Segundo Neil, “o que é um mestre senão
um mestre estudante? Existe uma responsabilidade em você de sempre ser melhor”.
Embora frequentemente fosse referido como gênio, ele sempre rejeitava o termo e
preferia ressaltar o quanto estudava seu instrumento e lia livros para produzir
uma arte melhor, deixando seu ego de lado. E era isso que fazia de Neil Peart
um gênio.
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