Lord of the Flies


Talvez exista uma besta... Talvez seja apenas nós.
Simon
O Senhor das Moscas, de William Golding

A MÚSICA

LORD OF THE FLIES
The X Factor
1995
Letra de Steve Harris

Eu não me importo mais com esse mundo.
Eu só quero viver minha própria fantasia.
O destino nos trouxe até aqui.
O que estava para acontecer agora está acontecendo.

Eu percebi que gosto de viver a vida em perigo.
Viver ao extremo nos faz sentir como o um só.
Ninguém se importa com o que é certo ou errado, é a realidade.
Matando conseguiremos sobreviver onde quer que nós andemos.
Onde quer que possamos nos esconder, temos que escapar!

Eu não quero que a existência termine.
Temos que nos preparar para adversidades.
Eu apenas quero sentir como se fossemos fortes.
Nós não precisamos de um código de moral!

Gosto dessa mistura de emoção e raiva.
Isso faz despertar o animal, o poder que você sente.
E sentir tão bem com tanta adrenalina.
Empolgados, mas com medo de acreditar o que nos tornamos.

Santos e pecadores, algo dentro de nós!
Nós somos o Senhor das Moscas!
Santos e pecadores, algo dentro de nós!
Para ser o Senhor das Moscas!

Santos e pecadores, algo nos chamando!
Nós somos o Senhor das Moscas!
Santos e pecadores, algo dentro de nós,
Para ser o Senhor das Moscas!
Santos e pecadores, algo nos chamando!
Nós somos o Senhor das Moscas!
Santos e pecadores, algo dentro de nós,
Para ser o Senhor das Moscas!

O FILME

LORD OF THE FLIES (O SENHOR DAS MOSCAS)
1963
Dirigido e escrito por Peter Brook

Lord of the Flies é creditada a Steve Harris e Janick Gers. Como a música é ditada pela guitarra, suponho que Janick a compôs e Harris foi quem escreveu a letra. Ela é inspirada no clássico O Senhor das Moscas, lançado em 1954 pelo vencedor do Nobel de Literatura William Golding. Mais precisamente, ela reflete os pensamentos de Jack, um dos protagonistas do livro.

Há duas adaptações dessa obra para o cinema, essa de 1963 e outra de 1990. Apesar da segunda ser mais bonita, escolhi essa primeira por ser a mais fiel ao livro e ter tido suporte do autor. O Senhor das Moscas é uma alegoria para reflexões filosóficas acerca da natureza humana e da organização social. O título da obra é derivado de Beelzebub, uma entidade pagã que foi transformada em demônio no Livro de Reis, da Bíblia. Embora esteja representado fisicamente em uma passagem do livro, o Senhor das Moscas é uma alusão à maldade inerente do homem.

A história se passa no meio de uma guerra indeterminada, onde um avião de evacuação cheio de crianças inglesas é derrubado em uma ilha deserta. Sem nenhum adulto por perto, eles precisam se organizar para sobreviver. Ralph se torna líder do grupo, Piggy (Porquinho) é uma espécie de conselheiro, Jack é apontado como líder dos caçadores e, eventualmente, Simon se torna o garoto com a faceta mais mística da história. Os demais meninos têm papéis secundários. Há ainda outros elementos importantes para a trama. Um deles é a concha, usada sempre para reunir os garotos e dar o direito à fala na reunião. Ela representa a democracia. Outro elemento é a fogueira, por motivos óbvios. E um terceiro são os óculos de Piggy, que se tornam uma ferramenta para fazer fogo.

Por um tempo, tudo funciona razoavelmente bem e as crianças estão até felizes longe dos adultos. Mas progressivamente a verdadeira natureza humana começa a surgir nos meninos e a estrutura social principia a ruir. Existe um rumor que algo maligno habita a floresta. Em um dado momento, Simon chega a encontrar o Senhor das Moscas na forma de uma cabeça de porco espetada em uma lança e tapada de insetos. A besta fala com ele, mas Simon não tem certeza se aquilo é realidade ou fantasia, se há mesmo um mal externo ou se o Senhor das Moscas é o próprio instinto das crianças. E ele acabaria descobrindo isso da pior maneira possível.

O Senhor das Moscas foi a minha primeira leitura completa em inglês, tempos atrás. É um livro fácil de ler e que proporciona boas reflexões sobre nós mesmos. Embora Golding simplifique bastante as nuances da natureza humana, ele faz essa provocação de uma maneira que engaja crianças e adolescente. Não à toa, esse livro é leitura obrigatória no ensino médio de língua inglesa. Por outro lado, os filmes, se vistos fora desse contexto, parecem mais uma aventura semelhante ao seriado Lost (2004), que por sinal é inspirado no livro. De qualquer forma, as duas mídias valem a pena serem conferidas.

O TEMA

Sentineleses na Ilha de Sentinela do Norte
Foto de Raghubir Singh (Nat Geo)

Em 2018, um jovem missionário americano de 26 anos chamado John Allen Chau pagou um pescador para leva-lo até a Ilha Sentinela Norte. Nessa ilha vive um povo chamado sentineleses, uma tribo de 30 mil anos que é completamente hostil ao contato externo. Segundo o pescador, o americano seguiu sozinho de caiaque a partir de um ponto e foi atingido por uma flecha assim que se aproximou da ilha. Seu corpo foi levado para a floresta pelos sentineleses e o governo da Índia, a qual a ilha pertence, declarou que não é possível resgatar o corpo do jovem. Devido à hostilidade, pouco se sabe sobre essa tribo e o contato com ela é proibido pela lei indiana.

Não há grande diferença biológica entre os sentineleses e o resto do mundo. Somos todos da espécie Homo sapiens dentre da taxonomia. Ainda assim, existe uma diferença de comportamento social enorme entre um cidadão de Nova York e um membro dessa tribo, o que nos leva a questionar como é a verdadeira natureza humana. Nascemos hostis e somos polidos pela convivência social? Ou nascemos bons e somos corrompidos pela sociedade? Thomas Hobbes concorda com a primeira tese em O Leviatã (1651) enquanto Jean Jacques Rousseau é defensor da segunda na obra Do Contrato Social (1762). E esse debate segue até hoje entre cristãos e ateus, conservadores e progressistas, capitalistas e comunistas, democratas e autoritários, de diversas formas e em diversos escopos diferentes.

O Senhor das Moscas é uma alegoria para essa discussão. Seu autor, Sir William Golding, serviu à Marinha Real Britânica durante a segunda guerra mundial, uma década antes de lançar a obra. E ele resume sua experiência em uma frase: “Qualquer pessoa que tenha passado por esses acontecimentos terríveis sem entender que o homem produz o mal como a abelha produz o mel estava cega ou louca”. Ele claramente se coloca em oposição a Rousseau. É inconcebível que Hitler tenha nascido bom e nós o tenhamos corrompido a ponto de chegarmos ao Holocausto. Deve haver algo no homem que, se não fosse rigorosamente polido por leis e regras, faria dele um sociopata buscando apenas sua própria sobrevivência.

Quando chegam à ilha, os meninos são estudantes ingleses educados na mais fina etiqueta. Mas eles já não eram naturalmente assim. Suas naturezas eram cerceadas por adultos que as moldavam para a convivência na sociedade britânica. Elas só se relevaram quando foram postos em uma ilha deserta onde vale aquela interpretação grosseira de darwinismo que dita que o mais “forte” é quem sobrevive. Eles ainda tentam manter por um tempo a organização social e estabelecer um Estado democrático através da concha, mas o Senhor das Moscas acaba vencendo. O antagonismo entre Jack e Ralph no fim se mostra um falso antagonismo. Eles não são alegorias para ditadura e democracia, respectivamente. Ambos são facetas da mesma índole humana que sucumbirá eventualmente.

Por outro lado, embora seja uma reflexão interessantíssima trazida ao contexto de literatura juvenil, a análise de Golding acaba se mostrando um pouco superficial. É preciso lembrar que pessoas de calibre intelectual gigantesco debateram essa questão sem chegar a um consenso definitivo. Como contraexemplo, podemos comparar membros da comunidade islâmica no Brasil, onde nunca houve um incidente de terrorismo jihadista, e os jovens homens-bomba da Al-Qaeda. O islamismo é uma religião violenta e o Ocidente a coloca nos eixos? Ou a realidade de guerra e fome no Oriente Médio é mais propícia para fomentar a violência justificada por interpretações específicas do Corão? Estes são debates sociológicos que vão além do escopo de um livro de aventura ou de uma conversa de bar. E a provável resposta, como quase tudo na vida, está em um equilíbrio entre as duas teses antagônicas.

Seja lá como for, independente se Rousseau ou Hobbes está certo, a ideia de que a maldade é externa ao ser humano é absurda e covarde. Piggy no fim das contas está sendo a única voz racional e responsável quando diz que não votou por nenhum fantasma. Seja por nossa própria natureza ou pelos modelos de sociedades que formamos, nós somos o Senhor das Moscas.

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