Flight of Icarus


O fracasso não é uma opção.
Gene Kranz
Apollo 13

A MÚSICA

FLIGHT OF ICARUS
Piece of Mind
1983
Letra de Bruce Dickinson e Adrian Smith

Conforme o Sol surge sobre o chão,
Um homem velho está de pé sobre a colina.
Conforme o chão se aquece com os primeiros raios de luz,
O canto de um pássaro quebra o silêncio.

Seus olhos estão em chamas.
Veja o homem louco em seu olhar.

Voe! Em seu caminho, como uma águia,
Voe tão alto quanto o Sol!
Em seu caminho, como uma águia,
Voe! Toque o Sol!

Agora a multidão se abre e um jovem garoto aparece.
Olha o velho nos olhos.
Conforme ele abre suas asas e grita para a multidão:
“Em nome de Deus, meu pai, eu voo!”

Seus olhos parecem vidrados
Enquanto ele voa nas asas de um sonho,
Agora ele sabe que seu pai o traiu.
Agora suas asas viram cinzas, as cinzas de sua sepultura.

Voe! Em seu caminho, como uma águia,
Voe tão alto quanto o Sol!
Em seu caminho, como uma águia,
Voe! Toque o Sol!

O FILME

APOLLO 13 (APOLLO 13)
1995
Dirigido por Ron Howard
Escrito por William Broyles Jr e Al Reinert

Flight of Icarus, creditada a Bruce Dickison e Adrian Smith, é inspirada pelo mito grego de Ícaro e Dédalo.  Entretanto, ao contrário da letra, Ícaro não foi traído pelo seu pai, como conto mais abaixo. Seu pai na verdade tenta avisá-lo sobre a sabedoria dos deuses gregos, mas Ícaro é imprudente e se rebela contra a ordem do Universo. Embora a música seja muito boa, a letra é bem fraquinha quando comparada à profundidade do mito. De todo modo, ainda serve para uma boa discussão.

Até onde minha pesquisa foi, não existe um filme que reconta esse mito. Nem mesmo em meio à febre dos épicos dos anos 50 e 60. O mais próximo que se encontra são duas adaptações toscas da lenda do Minotauro, adjacente a esse mito. Portanto, abusando um pouco da metáfora, escolhi um filme baseando em fatos reais que também conta a história de um voo incrível que quase acabou em desastre, o voo da Apollo 13. Para estender um pouco mais o paralelo, o filme também conta a história de um inacreditável trabalho de engenharia por trás desta façanha, um trabalho digno de uma comparação com Dédalo.

Apollo 13, o filme, é baseado no livro Lost Moon, de Jim Lovell e Jeffrey Kluger. Ele narra os eventos da terceira missão da NASA com o objetivo de colocar o homem na Lua. Os astronautas eram o próprio comandante Jim Lovell e os pilotos Jack Swigert e Fred Haise. Essa missão é famosa pela frase “Houston, nós tivemos um problema aqui”. O tal problema reportado por Swigert ao Centro de Controle da NASA que fica em Houston (TX) era uma explosão no tanque de oxigênio líquido que acabaria por impossibilitar o seguimento da missão e colocar a vida dos três em risco. Do outro lado da linha estava o time de engenheiros e cientistas liderado pelo Diretor de Voo Gene Kranz. Com a vida de três cidadãos americanos em risco e o mundo inteiro assistindo ao vivo pela TV o desenrolar da missão, Kranz resumiu a pressão daquele momento em outra icônica frase: “O fracasso não é uma opção”.

Embora essa frase esteja no prefácio da minha dissertação de mestrado por eu considerar que ela representa bem o espírito da engenharia e também seja o título de um livro do próprio Gene Kranz, ela possivelmente não foi dita por ele naquele momento. Era apenas o sentimento de todos naquela sala. Eles precisavam transformar aquela missão de ida à Lua em uma missão de meia-volta com muito menos recursos disponíveis. E só podiam contar com as ferramentas presentes nos dois módulos da nave.

Graças ao trabalho heroico desse time, os três astronautas foram resgatados sãos e salvos no Oceano Pacífico quatro dias depois. Os suprimentos do módulo lunar que deveriam suportar duas pessoas por dois dias foram redesignados para manter os três vivos pelo dobro do tempo. Depois do voo da Apollo 11, o primeiro a colocar o homem na Lua, o voo da Apollo 13 certamente foi o maior feito da engenharia aeroespacial na história da humanidade. Infelizmente para Jim Lovell, protagonista do filme, ele jamais pôde pisar na Lua, embora tenha ido até ela por duas vezes, sendo a primeira na missão pioneira que a orbitou (Apollo 8).

O TEMA

O Voo de Ícaro
Jacob Peter Gowy (1637)

Ícaro era filho de Dédalo, um habilidoso engenheiro, arquiteto e inventor. A despeito de suas habilidades, Dédalo acabou expulso de Atenas por ter matado o próprio sobrinho após um ataque de ciúmes intelectual. Para um grego da época, ser expulso de sua cidade é o mesmo que ser condenado à uma vida de infelicidade, uma vez que havia o senso de que tudo pertencia a um lugar no Cosmos. Basta ver passagens como o retorno de Odisseu à Ítaca e o suicídio de Sócrates após ser malquisto em Atenas para notar a importância dessa questão na filosofia grega.

Após ser expulso, Dédalo se exilou na ilha de Creta, governada pelo rei Minos. Filho de Zeus e Europa, Minos conquistou seu reinado convencendo os ilhéus que possuía afinidade com os deuses. Certa feita, pediu que Poseidon fizesse emergir à praia um touro para que ele o sacrificasse em honra ao deus. Como os deuses eram persuadidos por sacrifícios e bajulações, o pedido foi atendido e o rei pôde provar seu merecimento ao trono. Entretanto, cometendo uma gravíssima falta, Minos decidiu poupar o belo touro do sacrifício e o tomou como reprodutor em seu rebanho pessoal. Ofendido, Poseidon fez o rei pagar com a mesma moeda.

A mulher de Minos, Pasífae, acabou se apaixonando pelo touro de Poseidon. Paixão no sentido literal: a rainha possuía um profundo desejo de copular com o touro! Afim de satisfazer sua ambição sexual, ela pediu que Dédalo resolvesse a incompatibilidade de espécie, de modo que o touro pudesse corresponder à sua investida. Dédalo, habilidoso como sempre, construiu um aparato de madeira no formato bovino, cobriu com as peles de uma vaca e deixou um compartimento no qual a rainha podia encaixar sua vagina de modo a persuadir o touro. Desse bizarríssimo encontro nasceu o Minotauro, que significa Touro de Minos, embora fosse qualquer coisa menos de Minos, um terrível monstro com corpo de homem e cabeça de touro.

Horrorizado, o rei pede que Dédalo dê um jeito no novo enteado. O arquiteto então desenha o mais complexo labirinto proposto até então. Nem mesmo ele seria capaz de encontrar a saída sem o mapa em mãos. Minos então constrói o labirinto e encerra o Minotauro lá dentro. E de fato nem o bicho e nem desafeto algum do rei acharam a saída do tal labirinto, até a chegada de Teseu. Esse herói não só entrou e saiu do labirinto como também deu cabo do monstro preso lá dentro. Porém, para isso, ele contou com a ajuda de Dédalo e Ariadne, a filha do rei, que lhe deram um novelo para marcar o caminho de volta antes de enfrentar o monstro. Com essa segunda traição, Minos aprisiona o próprio Dédalo e seu filho Ícaro no labirinto de Creta.

Embora fosse incapaz de encontrar a saída, Dédalo usou mais uma vez suas habilidades. Juntando por alguns anos cera de abelha e penas de aves que encontrava no labirinto, ele construiu dois formidáveis pares de asas. Então elaborou um plano para escapar com o filho pelo ar e atravessar o mar Egeu de volta ao continente. Antes de partirem, porém, ele faz um crucial alerta a Dédalo: não se deve voar muito baixo, pois a umidade do oceano pode encharcar as asas, e nem muito alto, pois o sol pode derreter a cera. Novamente, a ideia aristotélica de justiça está de certa forma refletida no mito: nem muito, nem pouco.

O imprudente Ícaro porém logo se esquece do aviso do pai. O carro de Apolo atravessando os céus da Grécia o deixa completamente fascinado. Ele começa a voar cada vez mais alto, desejando ver o deus-sol, desejando estar à sua altura. Logo o jovem nota que está abanando seus braços nus. A cera derreteu e as penas caíram. Ícaro despenca lá de cima em uma queda fatal no mar (hoje conhecido como) Icariano. Dédalo nada pôde fazer para ajudar o filho. Restou ao herói Hércules que passava por ali a tarefa de dar um enterro digno ao jovem que ousou ver Apolo. A ilha onde Ícaro teria sido enterrado é atualmente chamada de Ícara, em sua homenagem.

Até hoje a lenda de Ícaro é lembrada e recontada de diversas formas. E muitas vezes, erroneamente, é atribuída a ela uma lição sobre a ambição desenfreada. Porém, é preciso lembrar que essa ideia de imoralidade é um conceito cristão, posterior à lenda. Ícaro foi punido pelo “pecado” de hybris, o espírito da arrogância. Ao tentar voar ao lado de um imortal, ele saiu do seu lugar no Cosmos e perturbou a ordem imposta por Zeus, algo que nunca passa incólume nos mitos gregos. Muito além da música do Iron Maiden, a lenda de Ícaro é um verdadeiro tratado filosófico.

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