*Uma das minhas bandas favoritas
encerrou suas atividades em 2019. Este é um post extra sobre o Big Four do Thrash Metal: Tom, Kerry, Jeff e Dave.
A
MÚSICA
ANGEL OF DEATH
Reign in Blood
1986
Letra de Jeff Hanneman
Auschwitz, o significado da dor,
A maneira que eu quero que vocês morram.
Morte lenta, imensa podridão,
Chuveiros que lhes purificam de suas vidas.
Forçados adentro,
Como gado vocês correm,
Despidos do
Valor de suas vidas.
Ratos humanos, para o anjo da morte.
Quatrocentos mil a mais para morrer.
Anjo da morte!
Monarca do reino dos mortos!
Sádico, cirurgião da perdição.
Sadista do mais nobre sangue.
Destruindo, sem piedade,
Para o benefício da raça ariana.
Cirurgia, sem anestesia.
Sinta a faca te perfurar intensamente.
Inferior, sem uso para a humanidade.
Amarrado e gritando para morrer.
Anjo da morte!
Monarca do reino dos mortos!
Infame carniceiro!
Anjo da morte!
Bombeado com fluído dentro do seu cérebro.
A pressão no seu crânio começa a empurrar
Através dos seus olhos.
Queimando a carne, cai em pedaços.
Teste de calor queima sua pele.
Sua mente começa a ferver.
Frio gelado quebra seus membros.
Quanto tempo você pode durar
Nesse enterro em água gelada?
Costurados juntos, unindo cabeças.
Apenas uma questão de tempo
Até vocês se dilacerarem ao meio.
Milhões deitados em seus
túmulos abarrotados.
Jeitos repugnantes para realizar
O holocausto.
Mares de sangue, enterrem a vida!
Cheire sua morte enquanto ela queima
Dentro de você!
Cegado através de calor, olhos que sangram.
Rezando pelo final de
Seu pesadelo acordado.
Asas da dor, buscam te atingir.
Sua face da morte te encarando.
Seu sangue está correndo gelado.
Injetando células, olhos moribundos.
Se alimentando dos gritos
Dos mutantes que ele está criando.
Patéticas vítimas inofensivas
Deixadas para morrer.
Detestável anjo da morte
Voando livremente.
Anjo da morte!
Monarca do reino dos mortos!
Infame carniceiro!
Anjo da morte!
O
FILME
WAKOLD (O MÉDICO ALEMÃO)
2013
Dirigido e escrito por Lucía Puenzo
O
falecido guitarrista do Slayer, Jeff Hanneman (1964-2013), escreveu a faixa de
abertura do clássico Reign in Blood. A música é inspirada em dois livros que
Jeff leu sobre o médico nazista Joseph Mengele, também conhecido nos campos de
concentração como O Anjo da Morte. A letra é escrita do ponto de vista do
médico e de um observador externo que julga suas ações, o que é algo incomum.
Na verdade, o Slayer escreveria letras desse ponto de vista posteriormente,
como em Jihad, uma narrativa sob a ótica dos terroristas do 9/11. E, como era
de se esperar, ela causou muita polêmica.
Sobreviventes
do holocausto e a mídia americana em geral acusaram o Slayer na época de
simpatizar com o nazismo. Jeff respondeu: “...não
há nada que eu tenha colocado na letra que diz que ele era uma pessoa má
porque, para mim, - bem, não é óbvio? Eu não deveria ter que te dizer isso”.
Pessoalmente, eu sempre encarei as letras do Slayer como críticas viscerais ao
que existe de pior na sociedade e na natureza humana. É como um filme de terror
que causa ainda mais desconforto por baseado em fatos reais.
Quanto
ao Wakold, embora ele destoe um pouco no quesito peso quando comparado à música
e ao tema, eu o escolhi por uma questão de proximidade: Mengele fugiu para a
Argentina e passou seus últimos anos no Brasil, muito próximo de onde eu moro
atualmente. O filme retrata justamente essa sua estadia na Argentina, onde ele
era apenas um alemão comum entre vários colonos. Ele usa seus conhecimentos
médicos para ajudar uma garotinha baixinha a crescer mais rápido. Mas, quando
ele descobre que a mãe está grávida de gêmeos, seus velhos hábitos veem à tona.
Por sorte (e azar), ele não tem tempo de causar um mal maior pois precisa fugir
da Mossad, o serviço secreto israelense, que acabara de capturar seu
companheiro de SS, Adolf Eichmann.
Nota: Sobre Eichmann, recomendo a leitura do excelente Eichmann em Jerusalém, da filósofa
Hannah Arendt.
O
TEMA
Estudantes de medicina da USP analisam o crânio de Josef Mengele
Foto divulgada em 24/02/2017 (Leonardo
Benassatto/Reuters)
Joseph
Mengele obteve seu doutorado em antropologia na Universidade de Munique em
1935, na mesma cidade onde Adolf Hitler se tornou o notável líder do partido
nazista. Naturalmente, Mengele acabou aderindo ao partido, como vários jovens à
época faziam visando sucesso na carreira acadêmica, uma vez que o partido
financiava muito bem a “ciência” nazista. Em 1938, obteve seu segundo
doutorado, em medicina, pela Universidade de Frankfurt, onde fez estudos sobre
doenças genéticas. Nesse tempo, também era pesquisador no Instituto para
Higiene Biológica e Racial, onde conheceu o Dr. Otmar Freiherr von Verschuer,
um especialista em gêmeos. Esse contanto e seus conhecimentos científicos foram
cruciais para que, em 1943, Mengele fosse designado médico-chefe da SS no campo
de concentração em Auschwitz, na Polônia. É nesse ponto que ele se torna o anjo
da morte.
Logo
que chegou, recebeu sua primeira tarefa: cuidar de um bloco com 600 judias
sofrendo de febre tifoide. Mengele enviou todas para a câmara de gás,
encerrando a epidemia. E este se tornou o protocolo padrão para lidar com epidemias
e problemas similares. Por ser trabalho “brilhante”, Mengele foi condecorado.
O
campo de concentração era um parque de diversões para Mengele. Para seus
experimentos, ele selecionava judeus gêmeos, porque eles possuíam um grupo de
controle natural e porque Mengele estava altamente interessado em manipular a
replicação de características desejáveis na raça ariana. Vale notar que nenhum
de seus experimentos tem qualquer valor científico hoje. Ou seja, mesmo sob o
ponto de vista mais desumano e estritamente analítico possível, toda a sua
crueldade foi completamente inútil. Além disso, sua pesquisa também procurava
fundamentar a eugenia, uma pseudociência racista muito comum no século XX. Em
suma: uma completa e horrenda perda de tempo.
Os
nauseantes experimentos que Mengele realizava em gêmeos, com a assistência de
médicos judeus forçados a trabalhar para ele, incluíam: amputação desnecessária
de membros; infecção intencional de um dos gêmeos com doenças como a febre
tifoide; injeção de clorofórmio no coração, o que causa parada cardíaca
imediata; tentativas de mudar a cor dos olhos injetando químicos no glóbulo
ocular de pessoas vivas; transfusão de sangue e transplante de órgãos de
maneira desnecessária; submissão a condições de frio ou calor extremo, entre
outros. Muitas das vítimas não resistiam e morriam durante os experimentos.
Nesse caso, o outro gêmeo era morto para comparação na autópsia. Algumas
“precisavam” ser mortas para que ele analisasse o resultado. Em todo caso, os
que sobreviviam eram “descartados” algumas semanas depois nas câmaras de gás.
Mengele
também tinha uma atração especial por crianças e grávidas. Ele visitava
constantemente o “jardim de infância”, onde era chamado de “tio Mengele” por
suas futuras vítimas. Há relatos de que ele forçava o aborto em mulheres, por
vezes ficando em pé sobre suas barrigas. Quando o feto era expelido, ele o
dissecava para ver o resultado. Outras de suas vítimas eram os “indesejados”,
pessoas com alguma deficiência física, anões e doentes mentais. Ele próprio
fazia questão de participar da seleção de judeus quando o trem chegava em
Auschwitz para escolher os “melhores pacientes”.
Semanas
antes do exército russo tomar o campo, Mengele e os demais oficiais da SS
fugiram. Nos anos seguintes ele foi incessantemente caçado na Europa, vindo
parar na Argentina com a conveniência de diversas pessoas. Sem saber o seu
paradeiro, Mengele foi dado como provavelmente morto pelos americanos e
israelenses, embora a Mossad sempre tenha tentado encontra-lo. Em 1961,
mudou-se para o Brasil, indo morar em fazendas nas cidades de Nova Europa e
Serra Negra, interior de São Paulo. Obviamente, Mengele devia detestar o nosso
país, uma vez que estamos muito longe de ser uma raça “pura”, mas era o que lhe
restava. Viveu seus últimos anos em paranoia e decepção.
Em
1979, o alemão Wolfgang Gerhard de 67 anos foi encontrado morto em uma praia de
Bertioga, litoral de São Paulo. A causa muito provavelmente fora um AVC
enquanto nadava. Seu corpo foi enterrado em Embu das Artes, SP. 6 anos mais
tarde, a polícia federal descobriu que o alemão era na verdade Josef Mengele, O
Anjo da Morte.
Muitas
de suas vítimas recordam dele como um homem sempre sorridente e de ar
tranquilo. Seu sorriso era marcante porque possuía um pequeno vão entre os
dentes. Foi justamente esse sorriso que permitiu a identificação do corpo,
através da arcada dentária. Mais tarde, sua identidade foi confirmada
definitivamente via DNA através de seu filho. Como nem sua família, nem a
Alemanha e nem o Brasil aceitaram enterrar seus restos mortais, seu esqueleto
serve hoje de material didático em um laboratório da Universidade de São Paulo.
Por ironia do destino, a única contribuição de Mengele para a ciência é como
material de formação de estudantes miscigenados em um país tropical. Porém,
ironia alguma dá cabo dos crimes contra a humanidade que esse homem cometeu.
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