Transylvania

Ouça-os, os filhos da noite. Que música eles fazem!
Conde Dracula

A MÚSICA

TRANSYLVANIA
Iron Maiden
1980
Instrumental

[...]

O FILME

DRACULA (DRÁCULA)
1931
Dirigido por Tod Browning
Escrito por Garret Fort

Steve Harris conta que a banda chegou a compor uma linha melódica para os vocais e que haveria uma letra para Transylvania. Mas ela soou tão bem como instrumental que nem se deram ao trabalho. E, de fato, a atmosfera da música fala por si só. A tônica ditada pelas guitarras de Dave Murray e Dennis Stratton poderia facilmente ser incluída em uma versão mais pesada do musical Dança dos Vampiros (1967), de Roman Polanski.

No clássico romance do escritor irlandês Bram Stoker, originalmente publicado em 1987, Transilvânia é uma região da Romênia onde vive o sedutor, porém excêntrico, Conde Drácula. A trama é contada através de epístolas – cartas, notas, recortes de jornal – e começa com a viagem do jovem Jonathan Harker ao castelo de Drácula para fechar a venda de um imóvel em Londres, onde o conde pretende viver. De chegada, Harker se impressiona com as boas maneiras de seu anfitrião e é facilmente seduzido por ele, mas logo percebe ser um prisioneiro no castelo. Os estranhos costumes do conde logo revelam a Harker sua verdadeira natureza de vampiro.

No cinema, há cinco adaptações entre dezenas que se destacam: Nosferatu (1922), Dracula (1931), Dracula (1958), Nosferatu: Phantom der Nacht (1979) e Bram Stoker's Dracula (1992). O filme de 1922 é uma adaptação não-autorizada do romance e teve vários aspectos modificados para tentar, em vão, evitar um processo legal. Ainda assim, foi responsável por popularizar o livro. Dracula de 1931 é o filme mais clássico do conde, interpretado pelo lendário Bela Lugosi. A estética desse filme definiu a representação do vampiro no cinema posterior. A versão de 1958 tem o também lendário Christopher Lee no papel do conde e eu chutaria que é a versão favorita de Steve Harris. A minha versão favorita da história no cinema é o remake de Nosferatu dirigido por Werner Herzog em 1979, em grande parte por ser bem herzoguiana. Por último, o filme de 1992, dirigido por Francis Ford Coppola e estrelado por Gary Oldman, é a única versão a vencer óscares. Também é a versão mais fiel ao livro, com pequenas diferenças.

O TEMA

Abraham "Bram" Stoker (1847-1912)
Autor do romance Dracula, de 1897

O vampiro é uma entidade presente em folclores desde a Idade Antiga, com diversas variantes. Na literatura, embora publicações como The Vampyre de John William Polidori tenham sido publicadas décadas antes, o grande marco vampiresco foi Dracula de Bram Stoker. Publicado em 1897, o romance se aproveitou bastante da consolidação da literatura gótica no século anterior e a emergência do cinema nas décadas seguintes, sendo a principal referência para a estética do vampiro. Em 120 anos de existência, influenciou desde escritos políticos até séries adolescentes de gosto duvidoso.

Abraham Stoker era o assistente pessoal do ator Sir Henry Irving e diretor de seu teatro quando começou sua carreira de escritor. Irving, por quem Stoker tinha profunda admiração e até mesmo um possível desejo reprimido, é a inspiração para os trejeitos aristocratas e sedutores do Conde Drácula. Outra inspiração importante foi um viajante húngaro que lhe contou diversas histórias folclóricas do leste europeu, especialmente da região da Transilvânia (Romênia), onde floresceram lendas de vampiros. Depois desse encontro, o autor passou anos pesquisando sobre o tema e, embora não seja referenciado em suas anotações, o aspecto de crueldade e o nome da personagem principal é provavelmente inspirado em um antigo monarca romeno chamado Vlad III Drácula, também conhecido como Vlad, o Impalador.

Vlad III foi voivode (condutor) da Valáquia (atual Romênia) em três ocasiões no século XV. O sobrenome Drácula é um derivado de dracul, que significa “dragão” em romeno antigo. A alcunha Impalador vem da reputação de crueldade do monarca com seus prisioneiros. Escritos da época contam, por exemplo, o empalamento – onde se atravessa uma longa estaca no corpo da vítima, por vezes do ânus até a boca – de dois monges, para ajuda-los a ir ao paraíso, e suas mulas que não paravam de lamentar a morte dos donos. Em outro relato, Vlad ordenou que os turbantes de dois turcos fossem pregados em suas cabeças porque eles se recusaram a retirar os ornamentos ao prestar respeito em sua presença. Há também representações de Vlad almoçando tranquilamente em meio a suas vítimas empaladas e relatos do cozimento de partes humanas, enfatizando seu caráter sadista.

Outra monarca da região que pode ter inspirado Stoker devido à sua reputação sadista é Elizabeth Báthory. Nascida em 1560, um século depois da morte de Vlad III, Báthory era filha de vovoides da Transylvania e sofria de epilepsia quando criança, muito provavelmente por conta do casamento consanguíneo. Na época, o tratamento para esse quadro incluía esfregar sangue de outra pessoa (não necessariamente assassinada) nos lábios do doente. Quando adulta, talvez procurando se curar ou inspirada por esse tratamento, Báthory se tornou uma serial-killer e possivelmente tomava sangue ou até mesmo praticava canibalismo com suas vítimas. Segundo acusações em julgamentos públicos, a condessa castigava seus criados de maneira desumana e atraía mulheres jovens ao seu castelo para torturar, mutilar e matar em busca de uma espécie de beleza eterna. É possível que ela tenha vitimado mais de 600 jovens virgens nesse até ser acusada e condenada à prisão perpétua, tendo falecido na prisão em 1614. Nesse período, sua fama se espalhou pela região e surgiram rumores que ela poderia ser uma vampira.

Dentre muitas variantes, o vampiro é comumente associado a um morto-vivo com aversão à luz do sol e de hábitos noturnos, semelhante a um morcego. Também como algumas espécies de morcego, eles se alimentariam de sangue humano para manter uma juventude eterna. Em regiões de cristianismo predominante, apresentam aversão a elementos como a cruz e a hóstia, e também são associados ao satanismo. Uma outra característica importante é a sua reprodução: ao morder uma vítima, o vampiro a transforma em um dos seus, tal qual em uma epidemia. Em uma análise antropológica, essas lendas estão associadas a fenômenos naturais como a decomposição exposta de cadáveres, o enterro prematuro acidental ou punitivo, epidemias de doenças como a raiva e a peste e também doenças semelhantes a porfiria, que (erroneamente) poderia ser tratada com o consumo de sangue.

Embora as histórias de vampiro tenham sido desvirtuadas recentemente com obras de cunho puramente comercial, como a série de filmes Twilight, o seriado The Vampire Diaries e até mesmo novelas brasileiras, a literatura clássica e o cinema do século XX está repleto de ótimos exemplares dessa vertente gótica. A lenda do vampiro permanece no imaginário popular principalmente pelo seu romantismo e sexualidade, em contraste com zombies, lobisomens, fantasmas e afins. Curiosamente, a despeito de acusações de séries como Twilight terem, pejorativamente, afeminado o vampiro, a obra original de Bram Stoker tem todo um caráter homoerótico, sendo ele próprio um possível homossexual reprimido da época vitoriana que projetou no Conde Drácula esse aspecto do desejo proibido.

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