Powerslave

Eu não morrerei novamente. Meu momento está em seus corpos, mas minhas formas estão em meu lugar de habitação. Eu sou aquele que não pode ser conhecido.
Os Feitiços de Avançar Cada Dia
Livro dos Mortos Egípcio

A MÚSICA

POWERSLAVE
Powerslave
1984
Letra de Bruce Dickinson

Dentro do abismo eu cairei – o olho de Hórus.
Dentro dos olhos da noite, me olhando ir.
Verde é o olho do gato que brilha neste templo.
Entra Osíris ressuscitado, ressuscitado novamente!

Me diga porque tenho de ser um Escravo do Poder!
Eu não quero morrer, eu sou um deus,
Por que não posso viver para sempre?
Quando o criador da vida morre,
Tudo em volta se deteriora.
E na minha última hora,
Eu sou um Escravo do Poder da Morte!

Quando eu vivia esta mentira, medo era o meu jogo.
Pessoas me adorariam e cairiam de joelhos.
Então traga-me o sangue e o vinho tinto,
Àquele que irá me suceder.
Pois ele é um homem e um deus,
E ele irá morrer também.

Me diga porque tenho de ser um Escravo do Poder!
Eu não quero morrer, eu sou um deus,
Por que não posso viver para sempre?
Quando o criador da vida morre,
Tudo em volta se deteriora.
E na minha última hora,
Eu sou um Escravo do Poder da Morte!

Agora estou frio, mas um espírito vive em minhas veias.
Silencia o terror que reinou – esculpido em pedra.
Couraça de um homem-deus preservado – mil eras.
Mas abra os portões do meu inferno:
Eu saltarei da sepultura!

Me diga porque tenho de ser um Escravo do Poder!
Eu não quero morrer, eu sou um deus,
Por que não posso viver para sempre?
Quando o criador da vida morre,
Tudo em volta se deteriora.
E na minha última hora,
Eu sou um Escravo do Poder da Morte...
Escravo do Poder da Morte...
Escravo do Poder da Morte!

O FILME

THE MUMMY (A MÚMIA)
1999
Dirigido e escrito por Stephen Sommers

A letra de Dickinson fala em primeira pessoa sobre a angústia do Faraó ao refletir sobre sua iminente morte. No Antigo Egito, o Faraó era considerado literalmente um deus que caminhava entre os homens, um descendente de Osíris, de Hórus. Ele era a divindade responsável pelas cheias do Nilo, algo vital para uma sociedade essencialmente agrícola no meio do deserto. Mas, assim como todos os homens e até mesmo os deuses, ele também estava sujeito ao poder da morte. Ao fim da letra, ele promete retornar dos mortos, em uma alusão ao conceito egípcio de vida após a morte e também fazendo referência às lendárias maldições de múmias que se popularizaram com a descoberta do túmulo de Tutancâmon em 1922.

Adaptado livremente do clássico filme de terror de 1932, The Mummy é ambientado no Egito, onde mais de 3.000 anos atrás o sumo sacerdote Imhotep era responsável pela preparação dos recém-mortos para suas jornadas até o Mundo dos Mortos. No entanto, Imhotep cometeu um erro imperdoável: ele se relacionou com Anck-Su-Namun, a intocável amante do próprio Faraó. Desesperado com a situação, Imhotep assassinou o Faraó e prometeu ressuscitar Anck-Su-Namun, que se matou assumindo a culpa pelo assassinato. Mas os guardas descobrem que o assassino era Imhotep e seu castigo é ser enterrado vivo para ser devorado aos poucos por escaravelhos carnívoros. Por uma maldição, ele também sofreria o tormento da vida eterna em um túmulo miserável.

Em 1925, um grupo de aventureiros em busca de fama e fortuna – liderado por Rick O'Connel, um expatriado americano que se juntou à legião estrangeira, e Evelyn Carnarvon, uma arqueóloga amadora – encontra um túmulo desconhecido até então. A equipe começa a cavar, na esperança de encontrar tesouros. Mas, em vez disso, elas perturbam o túmulo de Imhotep. Em uma sequência de erros desastrosos, a jovem arqueóloga lê o Livro Negro dos Mortos e acaba o trazendo de volta. O sacerdote-múmia começa então uma jornada para obter sua vingança contra os homens e a reunião com sua amada.

Curiosidade: Imhotep realmente existiu! Porém, ele era chanceler do rei do Egito, doutor, primeiro na linhagem do rei do Alto Egito, administrador do grande palácio, nobre hereditário, sumo sacerdote de Heliópolis, construtor, carpinteiro-chefe, escultor-chefe e feitor-chefe de vasos. Além de ser o arquiteto da primeira pirâmide e provavelmente o primeiro médico da humanidade. Não há registros de ele ter sido um talarico e nem de ter retornado dos mortos recentemente.

O TEMA

Osíris, Ísis, Seth e Hórus

Os egípcios antigos eram intimamente ligados à morte em forma de culto. Eles acreditavam nas noções de um mundo subterrâneo chamado Duat – mais semelhante ao Reino de Hades do que ao inferno tradicional cristão – para onde todos os mortos iam a partir de suas tumbas, de vida eterna e de renascimento. A exemplo do deus-sol Ra, que morre no crepúsculo e nasce na alvorada todos os dias, a vida eterna era um conceito cíclico de renascimentos.

Para atingir a vida eterna, havia dois requisitos que precisavam ser cumpridos. O primeiro, de responsabilidade individual, era viver a vida sob os preceitos éticos e morais registrados no Livro dos Mortos. Esses preceitos, na verdade, eram 42 não-pecados listados, semelhante aos dez mandamentos cristãos. De fato, os dez mandamentos estavam todos contidos nessa lista. Quando chegasse ao seu julgamento, o morto deveria se dirigir a cada um dos 42 juízes pelo nome e recitar os 42 pecados que não cometeu. Após esse processo, o deus Anúbis pesava o coração do morto contra uma pena. Se ele fosse mais leve, o dono iria ao encontro do deus Osíris. Se fosse mais pesado, ele iria ao encontro da deusa-demônio Ammit, que devoraria permanentemente a sua alma.

O segundo requisito para a vida eterna era responsabilidade dos que o morto deixou para trás. Seus parentes e amigos – ou servos, no caso de um Faraó – deveriam conservar o seu corpo para que alma tivesse um local para retornar. Esse processo envolvia retirar e guardar todos os órgãos em recipientes próprios e embalsamar o corpo de modo que ele fosse preservado para sempre, no processo conhecido como mumificação. Além disso, como a alma retornava ao corpo para continuar a viver, era necessário que o morto ficasse em um lugar confortável à vida, com alimentos e bens preciosos. No caso dos Faraós e seus mais próximos, eram construídas as pirâmides para servir de túmulo e armazém de suas riquezas. Embora fosse sumariamente proibido para os egípcios a violação de um desses túmulos, as pirâmides foram (e ainda são) pilhadas ao longo de séculos por diferentes povos.

A origem desses costumes é associada ao mito de Osíris. Neto de Amon-Rá (deus-sol), filho de Geb (deus-terra) e Nut (deusa-noite), Osíris era irmão de Seth, Ísis e Néfitis. Para manter a linhagem divina, ele era casado com a irmã Ísis, assim como Seth era casado com Néfitis. Juntos, Ísis e Osíris governavam o Egito primordial e são responsáveis pelo início da civilização, onde Osíris é creditado por inventar a agricultura e tirar os homens da fome e do canibalismo. Ao contrário de Osíris, Seth era associado ao caos e à violência, e sempre desejava a volta da humanidade ao estado natural.

Após uma longa viagem para expandir a civilização ao resto do mundo, Osíris retorna ao Egito para – estranhamente – ser recebido com uma festa dada por Seth em homenagem a ele. Nessa festa, após comer, beber e brincar, Seth apresenta um belíssimo baú ornamentado e oferece ao primeiro que couber perfeitamente deitado dentro dele. Todos os outros convidados tentam obtê-lo, porém são muito baixos, altos, gordos ou magros para aquela caixa. O último a tentar é Osíris, que se encaixa perfeitamente ao presente. Isso não era coincidência. Seth havia secretamente tomado as dimensões do irmão para construir o baú. Ao ter Osíris dentro da caixa, Seth e seus conspiradores a fecham, selam e jogam no rio Nilo. Embora seja um deus, Osíris acaba por morrer afogado no poderoso Nilo e Seth se torna o rei do Egito.

Ao saber do que aconteceu a seu marido, Ísis se desespera e sai à procura do corpo. As correntezas do Nilo levam o baú até uma pequena ilha, onde ele aporta e, em seu entorno, cresce uma gigantesca árvore que o incorpora com o tempo. Essa notável árvore é cortada por um rei da região e vira uma pilastra de seu palácio. É lá que Ísis, disfarçada de humana, consegue recuperar os restos mortais de Osíris. Sua esperança é que alguma magia consiga reverter a morte de seu marido.

Logo que descobre os planos de Ísis, Seth a persegue e consegue raptar Osíris, cortando o cadáver em quatorze pedaços e espalhando treze deles pelo Egito. O último, o pênis de Osíris, é dado aos peixes do Nilo para garantir que o deus nunca tenha um sucessor. Essa é uma das possíveis razões para que os egípcios antigos tenham supostamente evitado comer peixes.

De novo, Ísis e sua irmã Néfitis partem à procura dos restos mortais de Osíris. Para cada parte que elas encontram, um templo é erguido no local. Ao fim, todos os treze pedaços são recuperados. Com ajuda de Toth, o deus da sabedoria, e Anúbis, ela remonta e embalsama o corpo de Osíris, o trazendo de volta à vida com uma magia temporária. O deus, portanto, é a primeira múmia do Egito, um símbolo da vida após a morte. A ele é dado o reino dos mortos Duat, uma vez que ele é o único deus a passar pela experiência de caminhar por lá.

No breve tempo em que a alma de Osíris é magicamente reunida com o corpo, Ísis aproveita para refazer seus pênis e copular pela última vez com o marido, dando origem ao deus Hórus. Seu plano é que Seth seja deposto pela temida cria que ele tanto tentou evitar que viesse ao mundo. E de fato, depois de muitos conflitos e episódios interessantíssimos, Hórus acaba por derrotar Seth e restaurar o poder de sua dinastia no Egito. Esse episódio também marca metaforicamente a união do Baixo Egito e o Alto Egito sob o reinado de um único Faraó. Consequentemente, todos os faraós são tratados pelos egípcios antigos como descendentes diretos da linhagem de Osíris e Seth e literalmente deuses que caminham sobre a terra. Porém, assim como Osíris, eles estão destinados a morrer um dia. E, assim como Osíris, eles esperam retornar dos mortos para se reunificar com suas múmias.

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