The Wicker Man

Carne para apalpar, carne para queimar! Não deixe o homem de vime esperando!

A MÚSICA

THE WICKER MAN
Brave New World
2000
Letra de Bruce Dickinson

A mão do destino se move e o dedo aponta pra você.
Ele te deixa de joelhos e então, o que você irá fazer?
Sua língua congelou e agora você tem algo a dizer
O flautista nos portões da aurora te indica o caminho.

Você assiste o mundo explodindo toda noite.
Dançando sob o sol um novo nascimento na luz.
Diga adeus a gravidade e diga adeus a morte,
Dê olá à eternidade e viva cada suspiro.

A sua hora chegará!
A sua hora chegará!
A sua hora chegará!
A sua hora chegará!

O barqueiro quer seu dinheiro, mas você não vai devolver.
Ele pode empurrar seu próprio bote enquanto você sai do caminho.
Nada que você possa admirar será mais a mesma coisa.
Cada segundo é uma nova faísca, deixando o universo em chamas.

Você assiste o mundo explodindo toda noite.
Dançando sob o sol um novo nascimento na luz.
Irmãos e seus pais juntam as mãos e fazem uma corrente.
A sombra do homem de vime está se levantando novamente!

A sua hora chegará!
A sua hora chegará!

O FILME

THE WICKER MAN (O HOMEM DE PALHA)
1973
Dirigido por Robin Hardy
Escrito por Anthony Shaffer

Bruce Dickinson baseou essa letra neste filme de 1973, que por sua vez é inspirado no livro O Ritual de David Pinner. Em 1997, antes de voltar à banda, o vocalista já havia escrito uma canção sobre o mesmo tema, lançada posteriormente em seu Best of Bruce Dickinson (2001). A letra dessa música solo é mais fiel à história original, embora não seja nem de perto tão empolgante quanto a do Iron Maiden.

O filme começa com o policial britânico Neil Howie em uma missa, evidenciando que ele é um homem de grande fé, algo importante para a história. Devido a uma denúncia anônima, ele viaja para uma ilha remota em busca de uma garota desaparecida chamada Rowan Morrison. O povoado da ilha, em forte contraste com o devoto Howie, cultua os ancestrais deuses celtas e vivem todos em uma comunidade de costumes muito estranhos ao cristianismo. Na ilha, as pessoas transam abertamente em público, ensinam crianças sobre símbolos fálicos, adotam uma medicina heterodoxa e, principalmente, realizam importantes rituais aos deuses para garantir boas colheitas.

O líder da ilha, Lord Summerisle (interpretado pelo imortal Christopher Lee), é neto do responsável pelo renascimento do paganismo celta e responsável pela organização dos cultos. A trama se desenvolve com o policial encontrando várias pistas sobre o desaparecimento da garota, a despeito dos esforços dos ilhéus e de Summerisle em impedi-lo. A cada pista, ele fica mais certo de que a garota desaparecida será vítima de um ritual com sacrifício humano. De fato, há uma antiga crença de que o deus da colheita requer que um “escolhido” seja queimado vivo dentro de um homem gigante feito de vime para aplacar sua ira.

O filme de 1972 é considerado o “Cidadão Kane” do gênero. O remake de 2006 com Nicolas Cage é considerado “um absurdo” pelo próprio Nicolas Cage. Fica o alerta.

O TEMA

Homem de Vime
Britannia Antiqua Illustrata, 1676

Quem já leu/viu Asterix conhece muito bem os druidas, sacerdotes do paganismo celta. Embora os celtas – grego para bárbaros – fossem um conjunto de povos independentes que tinham em comum o costume de derrotar romanos, boa parte da cultura denominada “celta” era compartilhada pelas tribos que habitavam o oeste da atual Grã-Bretanha e partes de França, Espanha e Portugal. Atualmente o imaginário celta está mais ligado a Irlanda e Escócia, embora o neopaganismo tenha admiradores no mundo todo. É justamente nesse contexto que o enredo de The Wicker Man se desenvolve.

O filme descreve um culto neopagão, baseado em uma narrativa contida no documento “Comentário sobre as Guerras da Gália” do não-imperador Júlio César. Em um trecho do texto, há a seguinte passagem:

Toda a nação dos Gauleses é mui dada a superstições e por isso os que são acometidos de enfermidades graves, andam nas batalhas, e correm perigo, ou imolam vítimas humanas, ou prometem imolá-las; pois, a não se dar vida de homem por vida de homem, não julgam placável o poder dos deuses imortais; e estatuem sacrifícios públicos deste gênero. Alguns há que formam simulacros de descomunal grandeza, cujos membros tecidos com vime enchem de homens vivos, e aos quais lançado fogo, expiram homens abrasados pelas chamas. Reputam mais agradáveis à divindade os sacrifícios dos que são surpreendidos em furto, roubo, ou algum delito, mas, na falta destes, descem também aos sacrifícios dos inocentes.

Embora só exista evidências de sacrifício humano por decapitação na cultura celta, o texto de Júlio César descreve a construção de uma estrutura gigantesca feita de vime no formato de um homem. Dentro dessa estrutura, oferendas humanas eram queimadas vivas para deleite dos deuses. As vítimas eram preferencialmente infratores, mas podiam também ser pessoas inocentes na falta desses (supõe-se). Não há menção quanto ao objetivo específico dos sacrifícios, ao contrário do que mostra o filme. É importante destacar também que essa é a versão do vencedor. Ou seja, é o relato de um político-militar romano sobre um povo que eles mesmos deram a alcunha de bárbaros – aqueles que não falam grego, falam bar-bar-bar.

Dentro desse mesmo gênero de horror folk, mas em referência à mitologia germânica, há também o excelente filme Midsommar de 2019. Nele, um grupo de universitários americanos viaja até a Suíça para participar das festividades de verão em uma comunidade neopagã. Aos poucos eles vão descobrindo que as festividades incluem, por exemplo, dois anciões saltando de um princípio para a morte. Assim como The Wicker Man, o filme está repleto de referências e alusões aos festivais de primavera (May Day) e verão (Midsummer) realizados por diversos povos europeus na era pré-cristã. No Brasil, de tradição católica, seriam mais ou menos equivalentes às festas juninas.

Todavia, sacrifícios humanos estavam longe de ser a regra nesses cultos, sendo o sacrifício de animais e a oferta de cereais muito mais comuns. Em geral, eles eram feitos como medidas drásticas contra crises de fome por conta de colheitas fracassadas. No caso de civilizações pré-colombianas, também eram feitos massivos sacrifícios para evitar um eminente fim do mundo. Até mesmo na Bíblia há relatos de sacrifícios, como o de Abraão, onde o patriarca judaico-cristão recebe ordens de Jeová para que mate seu filho Isaque. Se for levado ao pé da letra, o próprio Jesus Cristo se sacrificou ao aceitar a morte em nome dos pecados de seus seguidores. Atualmente, os sacrifícios humanos e até mesmo de animais são amplamente proibidos e tipificados como assassinato, embora existam alguns casos macabros dessa prática.

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