Mother Russia


Secretário Geral Gorbachev, se você procurar paz, se você procurar a prosperidade para a União Soviética e a Europa Oriental, se você procurar liberalização, venha aqui a este portão. Sr. Gorbachev, abra o portão. Sr. Gorbachev, derrube este muro!
Ronald Reagan
Berlim, 12 de julho de 1987

A MÚSICA

MOTHER RUSSIA
No Prayer for the Dying
1990
Letra de Steve Harris

Mãe Rússia, como você tem dormido?
Sopra o vento frio de meados do inverno.
Das árvores caem flocos de neve,
Rodopiando como fantasmas na neve.

Mãe Rússia, majestosa poesia
Conta os tempos de um grande império.
Contrariando as ponderações do velho homem,
Relembrando uma época que passou.

Mãe Rússia!
Dança dos czares!
Levantem suas cabeças!
Tenham orgulho do que são!
A hora chegou!
Liberdade afinal!
Mudando o curso das areias da história
E seu passado.

Mãe Rússia!
Dança dos czares!
Levantem suas cabeças!
Lembrem-se de quem são!
Vocês podem liberar
A fome, a dor?
Vocês podem ser felizes?
Agora seu povo está livre!

O FILME

GOOD BYE, LENIN! (ADEUS, LÊNIN!)
2003
Dirigido por Wolfgang Becker
Escrito por Wolfgang Becker e Bernd Lichtenberg

Segundo Bruce Dickinson, “Mother Russia é sobre a tragédia de uma grande nação, que tem uma história incrível de superação e pessoas sendo massacradas por séculos. E essa música diz: não seria ótimo se a Rússia pudesse finalmente se reunir agora e viver em paz?” Quando foi escrita por Harris em 1989-1990, a União Soviética estava em pleno declínio e caminhava para seu fim, que ocorreu em 1991. Entretanto, em vez de escolher um filme sobre a Rússia, aproveitei o aniversário de 30 anos da queda do Muro de Berlim para assistir Good Bye, Lenin!, uma comédia/drama que tem como plano de fundo o fim da Alemanha Oriental.

No filme, Christiane Kerner é uma senhora de meia idade da Alemanha Oriental que, após ser abandonada por seu marido que fugiu para o Leste, passa a se dedicar fervorosamente ao partido. Espalhar a ideologia comunista e rodar a máquina burocrática passam a ser sua obsessão e sua válvula de escape. Até que um dia, ao flagrar seu filho protestando contra sua amada pátria, ela sofre um infarte e entra em coma. Oito meses depois ela acorda em uma Alemanha unificada e “invadida” pelo capitalismo – o Muro de Berlim havia caído! Porém, o médico alerta que se ela descobrir essa “tragédia”, pode sofrer um novo ataque e vir a falecer. Portanto, a missão de vida de seu filho Alex é manter viva a Alemanha Oriental ao redor de sua debilitada mãe.

O filme traz duas críticas interessantes. A primeira, mais cômica, se contrapõe ao comunismo: Alex passa boa parte do filme evitando que a mãe seja ameaçada por monstros como Coca-Cola, carros novos, supermercados abarrotados de produtos e liberdade de pensamento – ainda é 1950 em seu apartamento. A segunda crítica, mais deprimente, é em relação ao capitalismo: o sistema que prioriza o lucro muitas vezes deixa a desejar no lado humano e a vida de Alex – livre do comunismo, mas pobre no capitalismo – não é tão maravilhosa quanto ele imaginara. Em um dado momento, ele até se pega fantasiando com uma utopia soviética que nunca existiu. É uma mistura de nostalgia com choque de realidade.

Além da reflexão sobre o regime político, o filme garante boas risadas com as “bizarrices” de uma sociedade totalmente estranha aos ocidentais. Duas outras boas obras com esse contexto são A Vida dos Outros (2006) e série da HBO Chernobyl (2019). Uma outra boa comédia sobre o regime comunista é A Morte de Stálin (2017).

O TEMA

Cidadão da Alemanha Ocidental derrubando o Muro de Berlim
Reuters, 1989

O Muro de Berlim dividia o mundo em três partes. A oeste, o primeiro mundo – capitalista. A leste, o segundo mundo – comunista. E em cima do muro estava o terceiro mundo – desengajado na Guerra Fria, porém diretamente afetado por ela. Quando foi construído pela República “Democrática” da Alemanha (GDR), o muro era chamado de Antifaschistischer Schutzwall (algo como Muro de Proteção Antifascismo). Efetivamente, sua função era conter milhões de alemães do leste que burlavam as barreiras de emigração impostas pela União Soviética e buscavam asilo na vizinha-irmã capitalista. Era chamado no oeste de Muro da Vergonha. Foi palco do assassinato de mais de cem infratores que tentavam “escapar” e representava fisicamente a cortina de ferro que cercava o leste europeu. Por outro lado, em tempos de Guerra Fria, o muro também esfriava os ânimos sobre um eminente conflito entre os dois lados. Em suma, ele foi o maior símbolo dessa longa disputa acerca do melhor modelo de sociedade.

Há 30 anos, em 9 de novembro de 1989, o muro veio abaixou sob a fúria e a euforia de alemães de ambos os lados. Era um momento de mudança, onde a URSS de Mikhail Gorbatchov se abria cada vez mais e as fronteiras afrouxavam o trânsito de camaradas para o mundo ocidental. Isso tudo sob pressão, claro. Tanto pressão popular quanto da história de fracasso do planejamento econômico e da repressão política. Mas foi nesse dia que um curioso desencontro burocrático pôs fim ao muro. Günter Schabowski, líder local do partido à época, foi encarregado de informar o público sobre novas regulações a serem progressivamente adotadas. Entretanto, como ele não havia participado das decisões, acabou dando a entender que as fronteiras estavam abertas a partir daquele momento. Sua fala repercutiu em programas de TV do lado oeste, que atingiam também o lado leste. Em pouco tempo, milhares de alemães estavam em frente ao muro para exercer o novo direito. Diante disso, os guardas ainda atônitos com as notícias, nada fizeram para reprimir o movimento. Não havia mais volta e não haveria mais muro.

30 anos depois, o lado leste de Berlim e da Alemanha ainda sofre com os atrasos econômicos e sociais causados pela dominação soviética. Após 1989, quase 4 milhões de alemães deixaram o Leste. A renda per capita hoje é 25% menor que a do Oeste. Houve uma grande fuga de cérebros que atrasou o desenvolvimento tecnológico. Ainda há uma separação social onde os alemães orientais são discriminados. E, curiosamente ou não, é justamente em cidades como Dresden, Leipzing e Frankfurt que o maior eleitorado do partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD) se encontra. Assim como o muro, ruínas iliberais e autoritárias são facilmente encontradas aqui e ali em uma região que sofre com o legado maldito do nazismo e do comunismo.

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