Ai de vós, oh, terra e mar
Pois o Diabo envia a besta com ira
Porque ele sabe que o tempo é curto
Deixe aquele que compreende contar o número da besta
Pois é um número humano
Seu número é seiscentos e sessenta e seis
Apocalipse 12:12; 13:18
A
MÚSICA
THE NUMBER OF THE BEAST
The Number of the Beast
1982
Letra de Steve Harris
Saí sozinho.
Minha mente estava vazia.
Precisava de
tempo para pensar e para tirar as memórias de minha mente.
O que eu vi?
Posso acreditar?
Que aquilo que
vi naquela noite era real e não apenas fantasia?
O que eu vi, em
meus sonhos antigos,
Eram reflexões
da minha mente distorcida olhando para mim?
Porque nos meus
sonhos, está sempre lá,
A face do mal
que retorce minha mente e me leva ao desespero
A noite estava
negra, não dava para hesitar,
Porque eu tinha
que ver. Alguém estava me observando?
Na névoa,
formas escuras se movem e se retorcem.
Tudo isso era
real ou só algum tipo de inferno?
666, o número
da besta!
Inferno e fogo
foram criados para serem liberados!
Tochas foram
queimadas e cânticos sagrados foram louvados
Assim que eles
começam a clamar, mãos estendidas ao céu.
Noite adentro,
fogos queimam brilhantes.
O ritual
começou, o trabalho de Satanás está feito.
666, o número
da besta!
Sacrifício está
acontecendo esta noite!
Isto não pode
continuar, eu devo informar a lei.
Isto pode ainda
ser real ou apenas um sonho louco?
Mas me sinto
atraído pelas hordas que cantam.
Elas parecem
hipnotizar, não posso evitar seus olhos.
666, o número
da besta!
666, o único
pra você e pra mim!
Estou voltando!
Retornarei!
Possuirei seu
corpo e te farei queimar!
Eu tenho fogo!
Eu tenho a força!
Eu tenho o
poder para fazer meu mal seguir seu curso!
O
FILME
DAMIEN: OMEN II (DAMIEN: A PROFECIA II)
1978
Dirigido por Don Taylor
Roteiro de Harvey Bernhard
The Number of the Beast discorre sobre uma
mente perturbada por pesadelos e visões de um culto satânico, alguém que já não
sabe mais o que é real e o que não é. Essa letra foi escrita por Steve Harris e
é inspirada em duas obras principais: o filme ‘Damien: A Profecia II” e o poema
‘Tam o' Shanter: A Tale’, do inglês Robert Burns. Segundo o autor, a escrita se
deu quando ele próprio teve pesadelos após ver o filme, o que indica que Harris
é a mente perturbada da letra. O prefácio da música é composto de dois trechos
do livro de Apocalipse, em que João – o suposto autor – anuncia uma visão da
vindoura besta e deixa um código para que os interlocutores a identifiquem:
666.
O filme é o segundo de uma tetralogia que
narra a vida de Damian Thorn. Quando bebê, Damien foi secretamente trocado pelo
filho natimorto dos Thorn, uma vez que sua mãe havia morrido ao dar à luz. No
primeiro filme, é revelado que o garoto na verdade é o Anticristo e que sua
concepção ocorreu em um ritual satânico. Neste segundo filme, Damien já é um
adolescente criado pelos tios e começa a explorar sua verdadeira vocação. Em um
dado momento, ele descobre que tem o número 666 marcado no topo de sua cabeça,
o que indica – segundo o livro de Apocalipse – que ele é a besta anunciada por
João.
O poema narra a história d velho fazendeiro
Tam de Shanter que, após uma noite de bebedeira na cidade, cavalga em uma
estrada escura de volta à sua casa. No meio do trajeto, ele se depara com uma
igreja mal-assombrada e, ao se aproximar, descobre que bruxas e magos estão
cantando e louvando a Satanás em um ritual com as irritantes gaias de fole.
Ainda bêbado, Tam suspeita que houve um sacrifício humano no local, mas sua
atenção logo é desviada para uma encantadora bruxa. Esquecendo-se de onde
estava, ele começa a gritar e adular a bruxa, que obviamente passa a
prossegui-lo junto com os demais membros da seita. O fazendeiro então corre por
sua vida, escapando por muito pouco e terminando perturbado com tudo que se
passou, sem saber se realmente aconteceu ou foi apenas um pesadelo.
Para mim, A Profecia II peca por ser uma
daquelas sequências preguiçosas de filmes de terror. O primeiro é realmente
bom, no melhor estilo inglês de se fazer filmes desse gênero, mas os demais são
apenas explorações baratas do sucesso deste. Por isso, dou 2.5/5 em respeito ao
legado musical. Uma curiosidade interessante é que Damien é interpretado nesse
filme por Jonathan Scott-Taylor, um americano nascido no Brasil.
O
TEMA
La Bête de la Mer
Por Jean Bondol e Nicholas Bataille
O Livro de Apocalipse é o último da Bíblia
cristã e o mais emblemático. Seu título vem do grego apokalypsis (revelação), que também é a primeira palavra que
aparece no texto. Seu autor é referenciado na obra como “João”, embora
provavelmente não seja o mesmo João do quarto evangelho. A temática do livro é
voltada para a escatologia cristã, uma visão profética do “fim dos tempos”,
onde Jesus retornaria. Cheio de alegorias e enigmas, a certa altura, o texto
descreve duas bestas – a do Mar e a da Terra. Essas bestas seriam antagonistas
de Deus e exerceriam poder sobre os homens. Para reconhecer a besta do mar, João
dá a ela uma marca que é o número da besta, um número humano: 666.
Ao tentar interpretar esse misterioso
último livro que da Bíblia cristã, os estudiosos recorrem a um método
hermenêutico importante: a gematria. A Bíblia é uma compilação de livros que
foram escritos, reescritos e traduzidos ao longo de séculos em três línguas
principais: hebraico, grego e latim. No caso do hebraico, é possível e
comumente feita uma associação entre letras e números. Isso porque não havia na
época da escrita desses livros um sistema de algarismos como conhecemos hoje.
Sempre que se queria anotar um número utilizavam-se letras. Logo, o contrário
também era possível, um “número” podia codificar uma palavra. A gematria é o
estudo dessa codificação.
Em uma das interpretações possíveis, a
forma latina "Nero Caesar"
que no grego é “Nerōn Kaisar” ao ser
transliterada em hebreu fica “נרון קסר”. Aplicando a
gematria, tem-se 200 60 100 50 6 200 50.
A soma desses números resulta em 666.
Se o termo "Nero Caesar"
for transliterado diretamente em hebreu, a soma resulta 616, que também é encontrado em alguns manuscritos do Apocalipse.
Em suma, o número da besta possivelmente é o nome do imperador Nero (37-68
d.C.).
Embora não seja um consenso, é bem
plausível a ideia de que os primeiros cristãos usassem códigos para se
comunicar, dada a perseguição que sofriam por parte do império Romano. Fato é
que o livro contém diversos números com interpretações consistentes com essa
narrativa. Por exemplo, em Apocalipse 13:5 lê-se: À besta foi dada uma boca para falar palavras arrogantes e blasfemas, e
lhe foi dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses. Nero
começou a perseguir os cristãos em 64 d.C., quando ocorreu o grande incêndio de
Roma, e morreu em junho de 68, o que corresponde a 42 meses.
Interpretações à parte, fato é que o
número da besta se tornou sinônimo de Anticristo e Diabo no imaginário moderno.
Ela aparece em diversos filmes e livros como uma forma de identificar uma personificação
do Mal, muitas vezes de maneira subjetiva. No campo da música pesada, o número
da besta é uma marca tal qual o símbolo do anarquismo no punk. E sua interpretação
é algo bem simples que padres, pastores e produtores do entretenimento já perceberam
há tempos: o Diabo vende!
P.S.: Pessoalmente, a minha interpretação favorita é a de
que a besta é o capitalismo e 666
são os códigos de barra, porque eles formam grupos de seis algarismos e, em
Apocalipse 13:16,17, lê-se “E faz que a
todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um
sinal na sua mão direita, ou nas suas testas, para que ninguém possa comprar ou
vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu
nome”. Haja criatividade.
---666---


