Há mais coisas no céu e terra, Horácio, do que foram
sonhadas na sua filosofia.
Hamlet,
de Willian
Shakespeare
A
MÚSICA
DANCE OF DEATH
Dance of Death
2004
Letra de Janick Gers e Steve Harris
Deixe-me contar uma história de arrepiar
Sobre uma coisa que eu vi.
Uma noite vagando por pântanos
Eu tinha bebido um drinque, nada mais.
Eu estava divagando, aproveitando a brilhante luz da
lua,
Olhando as estrelas.
Não percebi a presença tão perto de mim
Observando cada movimento meu.
Com medo, eu cai de joelhos
Enquanto alguém correu de trás das árvores.
Levou-me para um lugar profano
E foi lá que eu cai em desgraça.
Então, eles me invocaram para juntar-me a eles
À dança dos mortos.
Para dentro do círculo de fogo eu os segui.
Para o centro eu fui levado.
Como se o tempo tivesse parado,
Eu ainda estava entorpecido pelo medo, mas eu ainda
queria ir.
E as chamas do fogo não me feriram
Enquanto eu andava sobre o carvão.
E eu senti que estava em transe
E meu espírito foi levado de mim.
Se alguém ao menos tivesse a chance
De testemunhar o que aconteceu comigo.
E eu dancei e eu pulei e eu cantei com eles.
Todos tinham a morte em seus olhos!
Figuras sem vida, todos eles eram mortos-vivos.
Eles vieram do inferno.
Enquanto eu dançava com os mortos,
Meu espírito livre estava rindo e uivando para mim.
Sob meu corpo morto-vivo apenas dançava o círculo dos
mortos.
Até que chegou a hora de nos reunirmos,
Meu espírito voltou para mim.
Eu não sabia se estava vivo ou morto
Enquanto os outros se juntavam a mim.
Por sorte, uma confusão começou
E desviou a atenção de mim.
Quando eles desviaram o olhar de mim,
Foi o momento em que fugi.
Corri como nunca, mais rápido que o vento,
Mas eu não olhei para trás,
Uma coisa que eu não me atreveria.
Era olhar apenas para frente.
Quando você sabe que sua hora chegou,
Você sabe que estará preparado pra isso.
Diga seu último adeus para todos.
Beba e faça uma oração para isso.
Quando você está deitado em seu sono, quando você está
deitado em sua cama
E você acorda de seus sonhos para ir dançar com os
mortos.
Quando você está deitado em seu sono, quando você está
deitado em sua cama
E você acorda de seus sonhos para ir dançar com os
mortos.
Sobre este dia eu acho que nunca saberei
Por que eles me deixaram partir.
Mas eu nunca mais irei dançar
Até que eu dance com os mortos.
O
FILME
DET SJUNDE INSEGLET (O SÉTIMO SELO)
1957
Dirigido e escrito por Ingmar Bergman
Dance
of Death é uma epopeia sobre alguém que foi subitamente arrastado para dançar
com os mortos. Embora seja bem descritiva, ela reflete sobre a inevitável
mortalidade do ser humano, algo que todos fazem em algum ponto da vida. Segundo
Janick Gers, a música foi inspirada na cena final desta obra-prima do diretor
sueco Ingmar Bergman, O Sétimo Selo. A cena final mostra a Morte
(personificada) à frente de uma fila de pessoas dançando no horizonte. Ela é
uma visão de um artista de circo, o único capaz de ver dessa maneira por ter
uma natureza transcendental.
O
filme narra o retorno de um cruzado, Antonius Block, para uma Suécia assolada
pela Peste Negra. Exausto, ele encontra a Morte na praia, personificada em um
homem de rosto franzino e corpo coberto por um manto negro. Block reluta em
aceitar seu destino dessa forma e propõe uma partida de xadrez contra a Morte.
Seu plano é sobreviver enquanto o xeque-mate não ocorrer. Acompanhado de seu
escudeiro, ele continua sua jornada rumo à sua casa, sempre sendo interrompida
para fazer um movimento no tabuleiro. Dentre várias facetas, há dois temas
principais nesse filme: a fé em Deus e a inevitabilidade da Morte.
Block,
enquanto cruzado, lutou em nome de Deus e se encontra retribuído com a
implacável peste. Ele começa a se questionar sobre o sentido de suas ações e o
significado da fé. O filme retrata isto o tempo todo fazendo um contraste entre
as duas personagens e o cenário: Block, reflexivo sobre a covardia de um deus
escondido na metafísica; o escudeiro, ateu resolvido; e a Era Medieval,
estereotipada na fé inquestionável. Também faz um paralelo com a época vivida
pelo próprio diretor, o pós-holocausto em que pairava a questão: onde estava
Deus durante a Solução Final?
Block,
enquanto homem, agora luta contra a inevitável vinda da morte. Ele sabe que não
pode vencer, mas sente que precisa adiar enquanto não encontra suas respostas.
Enquanto ludibria temporariamente a sua hora final, ele busca por sentido na
vida. Como mencionado antes, a trama se encerra como o xeque-mate mais marcante
na história do Cinema: a cena em que a Morte leva Block e sua família em fila
no horizonte, em uma alusão à Danse
Macabre.
O
TEMA
Descrição da Danse Macabre
Igreja da Santíssima Trindade em
Hrastovlje, Eslovênia
A
despeito das inúmeras alegorias e reflexões trazidas pelo filme, a música se
debruça sobre uma cena de 20 segundos. Uma cena icônica, entretanto. O Danse Macabre foi um tipo de alegoria
muito presente na Baixa Idade Média onde artistas representam a Morte dançando
com diversas pessoas. Em geral, eram representados um esqueleto personificando
a morte junto com clérigos, nobres, plebeus e crianças. Era um lembrete aos
católicos de que a morte vem para todos.
Essa
alegoria era usada especialmente para manter na mente dos fiéis a fragilidade
de suas vidas e, principalmente, suas finitudes (memento mori). Pelo dogma cristão, a vida neste mundo é apenas uma
passagem e não há que se preocupar com prazeres e glórias, apenas com garantir
uma entrada no paraíso, com a vida eterna e posterior à esta. Por isso também
não há distinção, aos olhos de Deus, entre pobres e ricos ou jovens e velhos. É
interessante notar que a proposta é o oposto do Carpe Diem tatuado em nove de
cada dez senhoras de meia idade deste século. Não se trata de aproveitar o
hoje, porque o amanhã é incerto, mas de não viver pelo hoje, porque o amanhã
precisa ser garantido.
O
que mais afligia a Block, e aos homens de sua época, não era a vinda da morte
em si, mas o preparo para ela. Ele estava preocupado em ganhar tempo só porque
não sentia pronto e satisfeito em suas convicções. Há uma procura por um deus
que insiste em não se mostrar. Em um dado momento, ele se confessa a um padre,
questionando: “É tão cruelmente
inconcebível compreender Deus com os sentidos? Por que ele insiste em se
esconder em uma névoa de promessas vazias e milagres invisíveis? O que vai
acontecer com aqueles de nós que querem acreditar, mas não são capazes?".
Block
encontraria total conforto para sucumbir à Morte se Deus fosse tão material
quando suas peças de xadrez, mas ele se vê como um peão em meio a reis e
bispos. E nenhum jogador atrás do tabuleiro. A sua aflição e seus
questionamentos são comuns a todos que se põem a refletir sobre essa última
dança: o que há depois? Há depois? E a resposta, se houver, só poderá ser
conhecida nesse depois, se houver. E é um não-tempo em que nada pode ser mudado,
um xeque-mate.
Creio
que nada aflige mais o homem do que não ter respostas e que a religião foi
inexoravelmente concebida em diversas culturas independentes para preencher
esse vazio. Mas, assim como o escudeiro, há sempre aqueles que estão apenas perplexos
frente a esse enorme abismo de não haver resposta. Ingmar Bergman também foi um
desses. E ele expressou sua perplexidade como ninguém.
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